O que significa fadiga da compaixão?

O que significa fadiga da compaixão?

 

Um estudo realizado pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) demonstrou que um terço dos médicos veterinários sofre de ansiedade, que de um sexto dos veterinários já pensou em suicídio e que a taxa de suicídio dentre veterinários é pelo menos três vezes maior do que a taxa geral. Diversos fatores podem elucidar estes resultados, como, por exemplo, o convívio com animais e seus tutores em sofrimento e a morte deles, o estresse emocional, por ser a única profissão autorizada pela legislação a realizar a eutanásia e que muitas vezes podem causar conflitos éticos e morais, e ainda cargas horárias extensas.

Toda essa carga emocional, quando bem direcionada, pode ser benéfica para um melhor desempenho e realização da profissão e é capaz de gerar sentimentos de empatia e compaixão. Mas quando esses sentimentos são utilizados erroneamente, podem se transformar em carga emocional negativa, acarretando danos à saúde mental e física e dando origem à fadiga de compaixão.

Profissionais da medicina veterinária, medicina humana, enfermeiros e trabalhadores voluntários, geralmente são altruístas e empáticos, com um desejo genuíno de curar e oferecer o melhor tratamento a seus pacientes enfermos ou em situações de vulnerabilidade. No caso dos médicos veterinários, esse estresse é duplamente sentido, pois o sofrimento é compartilhado pelo animal atendido e pelo seu tutor.

É imprescindível ressaltar que a fadiga de compaixão é um grave transtorno psicológico, que pode caminhar para quadros extremos de adoecimento mental, levando a um grande sofrimento psíquico e até mesmo induzir a tentativas de suicídio. Entender este problema é essencial e precisamos estar atentos de modo a compartilhar nossas histórias, aprendizados e ferramentas úteis, de modo que a podermos derrubar barreiras que nos impeçam de pedir ajuda.

Apesar de todo o sofrimento, dor, exaustão mental, emocional e física, a observação atenta dos sintomas é parte crucial no tratamento da fadiga de compaixão. Os sinais podem passar despercebidos, e muitas vezes tomados apenas como um mal-estar passageiro.

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A fadiga de compaixão pode se manifestar de várias formas. Sob a forma de esgotamento (burnout) ou do desapego nos relacionamentos importantes e mesmo nos relacionamentos profissionais. Junto com essas questões podemos observar sentimentos excessivos de culpa, emoções contidas, isolamento, descuido com a aparência e higiene, distúrbios do sono e pesadelos, problemas de concentração, aumento de consumo de bebida alcoólica, a tendência em ter pensamentos repetitivos e compulsivos, desesperança, exaustão, queixas constantes por parte dos outros, tais como familiares, colegas de trabalho e pessoas próximas, gerando conflitos, apatia e ausência de prazer nas atividades que antes geravam prazer, negação de problemas, depressão e queixas psicossomáticas, como dores de cabeça e problemas gastrointestinais.

É preciso ter ciência de que vários fatores exercem influência sobre a nossa saúde e nosso bem-estar geral. Precisamos ter um corpo sadio, uma mente sã, uma vida profissional saudável, relações sociais saudáveis e estabilidade financeira. É preciso identificar tais fatores e dedicar um tempo a cada um deles.

  • Corpo sadio: exercícios, dormir com qualidade e quantidade, hábitos nutricionais saudáveis, cuidados médicos preventivos e terapêuticos.
  • Mente sã: ter consciência e aceitar os sentimentos, procurar grupos de apoio, fazer terapia.
  • Relações sociais salutares: manter relações fora do ambiente do trabalho, planejar e implementar atividades prazerosas e saudáveis, investir em um hobby.
  • Estabilidade financeira: reconhecer a realidade financeira e, apesar das dificuldades, elaborar um plano mensal de rendimentos e despesas e acompanhá-lo regularmente (mensalmente, se possível semanalmente) de maneira crítica e honesta.

Apesar da paixão, precisamos ter o cuidado de não passar o bem-estar dos animais e tutores antes do nosso bem-estar, pois só nós somos responsáveis por ele. Vamos estabelecer limites no nosso trabalho, valorizando também nossa vida pessoal e nos dando conta de que não precisamos estar 24 horas à disposição.

É primordial destacar que a prática clínica muitas vezes pode ser muito solitária. Não precisa ser necessariamente assim. Não se isole, não se feche ao redor de seus problemas. Trabalhe em equipe, discuta os casos com seus colegas, dívida suas dúvidas e apreensões. Seus colegas muitas vezes podem estar na mesma situação em que você se encontra. Portanto, fale, compartilhe e construa laços de apoio e discussão.

Quando conseguirmos dar os primeiros passos, reconhecer e identificar estes momentos de crises, buscar ajuda especializada é fundamental. O apoio psicológico individual ou em grupo é um aliado. Caso necessário, não se envergonhe em consultar um médico psiquiatra para um possível uso de medicação, pois em alguns casos a medicação é uma parte crucial do tratamento.

E, principalmente, precisamos compreender e aceitar a realidade e nossas próprias limitações. Somos mortais e não deuses, não podemos salvar todos os animais que atendemos diariamente em nossas clínicas, consultórios e hospitais. Cada um de nós deve e pode fazer a diferença, zelar pela saúde e bem-estar dos animais, um de cada vez, tendo certeza de estarmos fazendo um trabalho incrível e apaixonado em nossa jornada diária.

“A função de médico veterinário é algo complexo e muitas vezes não nos damos conta do tamanho desta complexidade. Vivemos em um turbilhão de sentimentos e emoções diárias. Podemos iniciar nossa rotina de trabalho com uma eutanásia (morte assistida) de um paciente de longa data, que chegou até nós filhote para as primeiras vacinas e que tivemos o privilégio de atender durante toda a vida. Nossa vontade é, ao terminar esse procedimento, dar um tempo, respirar e chorar, mas não é possível, pois já estamos atrasados para a próxima consulta. Assim, entramos em outro consultório e temos que abrir um sorriso e parabenizar uma nova família que está se formando com um novo filhote repleto de energia e vida. Logo depois podemos nos deparar com um caso de prognóstico ruim e ter que dar essa notícia ao tutor que mora sozinho e cujo único companheiro é seu cão ou gato. O dia continua e nos deparamos com questões de maus tratos de animais, em uma gangorra de emoções". 

Sandra de Almeida, médica veterinária e psicóloga

 


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