Como elaborar o luto diante da Morte – um olhar sistêmico

Como elaborar o luto diante da Morte – um olhar sistêmico

Em toda a história humana e em todas as culturas, os rituais de luto estão presentes para facilitar e possibilitar a integração da morte e também a transformação dos sobreviventes para que a vida continue. O ritual de passagem é uma forma de presentificação e reconhecimento do que já se foi. Temos as mais diversas culturas, crenças, locais e a mesma busca de cuidar e honrar seus mortos, cada qual de uma forma:  O enterro, a cremação, a mumificação. Os Marcos, os Túmulos, os Totens, Obeliscos, Mausoléus, Pirâmides, a Urna, Símbolos de Passagem. A lembrança do que foi, para o vivo – e o lugar, para o que se foi.

Da perspectiva familiar sistêmica, a perda pode ser vista como um processo transacional que envolve o morto e os sobreviventes em um ciclo de vida comum, que reconhece tanto a finalidade da morte como a continuidade da vida. Alcançar o equilíbrio neste processo é a tarefa mais difícil que uma família deve enfrentar em sua vida.

Nessa perspectiva a morte tem a finalidade:  do ponto de vista individual, ao saber que vamos morrer ajuda a fazermos um plano para nossa vida. Podemos também ter a morte como “aliada” para procurar viver uma “boa vida”. Esta perspectiva nos ajuda a valorar a vida e suas questões. Do ponto de vista coletivo morrer é dar lugar para que outros possam viver, para a continuidade das próximas gerações. E por sua vez ter a certeza da continuidade da vida nos ajuda a partir em paz e deixar para aqueles que ficam a confiança necessária para continuar o dia a dia e saber que a dor vai se transformar numa “saudade gostosa”. Podemos com o tempo lembrar histórias, rir e chorar quase tudo ao mesmo tempo.

A Morte e as Mudanças na família

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Na família acontecem muitas transformações, uma delas é que alguém “toma o lugar do morto”, num acordo implícito. Alguém vai procurar exercer suas funções e assim terá dificuldade de viver sua “própria vida”, já que está no lugar do outro. Além disso podem ocorrer sintomas, alguém pode adoecer: pânico, depressão e outras doenças podem surgir a partir daí. O trauma da morte na família é um dos maiores estressores que podemos enfrentar e a raiz de muitas doenças. Outras transformações que acontecem são as brigas e rupturas. Algumas brigas acontecem através da disputa de herança. Outras brigas tem como raiz a culpa e a raiva. Muitas vezes no primeiro momento buscamos um culpado, até aceitarmos a perda como um processo natural da vida.

O Luto

O luto é processo interno e também familiar.

Como processo interno consome uma grande energia, nos sentimos “esgotados”. E algumas vezes também ” aliviados”, dependendo da situação, o que também nos causa culpa. Em outras situações nós sentimos paz, porque acreditamos que cumprimos nossa missão. Quando há uma morte na família, é no luto que passamos por várias etapas: primeiro negamos, não acreditamos que aconteceu; segundo nos revoltamos; terceiro pensamos numa permuta: podia ter sido eu e não ele; depois aceitamos e vamos buscando um jeito de ficar em paz com o que aconteceu.

E como ficar em paz com uma perda?

Luto significa luta, briga. A luta é interna e externa, porque muitas vezes se manifestam nas relações familiares.

Buscar a paz é um processo que passa por várias fases que já foram citadas. Você consegue a paz negociando com você mesmo. Buscando uma “compensação”. Dedicando a sua vida em homenagem ou honra a aqueles que foram. Um exemplo disso são pessoas que viveram a morte dos filhos com câncer e dedicam parte da sua vida a cuidar de crianças com a mesma doença. Encontrar um sentido e um propósito para a sua vida. Buscar a paz é aceitar a vida como ela é. Aceitar a morte como parte da vida.

A vida e a morte estão sempre de mãos dadas, na nossa frente. A morte nos ensina a viver melhor. Percebemos a dimensão do tempo, temos tempo, mas ele não é infinito, temos força, mas ela não é infinita. Precisamos usar bem nossos recursos e sentir que vivemos uma vida com sentido, assim poderemos viver bem e morrer bem! Teremos uma “boa vida” e uma “boa morte”.

Educação para o luto

Pesar e luto dizem respeito às conexões cortadas. Pesar é o sentimento de perda diante de uma conexão interrompida ou quebrada, e luto é o processo de incorporação desta perda na nossa vida. Uma pessoa pode ser capaz de aprender, a partir de suas experiências de perda e luto relativas aos outros, como lamentar-se e enlutar-se pela sua própria morte.

Estar de luto pela morte dos outros é uma maneira de ensaiar a nossa morte. Mas o luto não é só isso; é também um ritual de expressão de alguns dos sentimentos mais profundos e íntimos da nossa experiência. Se você inibir a expressão do seu pesar, pode ficar doente: depressão crônica, comportamentos ansiosos, comportamentos ritualísticos repetitivos, ou uma raiva excessiva, incontrolável.

Alguns processos são importantes para elaboração do luto, entre os quais: (1) reconhecer o luto, (2) reagir à separação, (3) recolher e re-vivenciar as experiências com a pessoa perdida, (4) abandonar ou se desligar de relações antigas, (5) reajustar-se a uma nova situação, (6) reinvestir energia em novas relações. O profissional Aroldo Escudeiro aponta e defende os benefícios de uma educação para o luto e a morte, no sentido de falar abertamente sobre isto com crianças, em escolas e instituições.

Seguir na linha contrária à morte interdita, tornando-a novamente um fato natural: “se faz necessário que os profissionais se disponham mais a refletir e trabalhar as questões pertinentes à morte e a perda, pois com certeza isso facilitaria a sua prática e seria um grande ganho para a sua vida pessoal” (ESCUDEIRO, 2005).

Um olhar mais amplo sobre a Morte

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A forma final de obter liberdade pessoal é preparar a nós mesmos para a iniciação dos mortos, aceitando a própria morte como aliada. O que o anjo da morte pode nos ensinar é como viver de verdade. Só temos o presente para viver!

Encontramo-nos ligados aos mortos à medida que nos lembramos deles e os presentificamos em nossas vidas por esta lembrança, na forma de imagens, comportamentos, posturas. A dor e o luto são processos necessários para que possamos nos separar daquele(a) que partiu. Aquilo que os mortos nos deram, independente se bom ou ruim, forte ou fraco, leve ou pesado, continua atuando sobre nós.

Quanto tomamos nas mãos o que nos foi dado por esta pessoa e agradecemos, deixamos que o passado passe e seguimos no presente, com os que ficaram em nossa alma. Só quando tem um lugar, pode descansar e deixar os vivos em paz. Percebe-se isto nas Constelações Familiares, quando o excluído ou temido, recebe um lugar, abençoa aqueles que estão a sua volta e cessa seu movimento de reivindicação. Assim, quando reconhecidos e respeitados, podem partir em paz, e dão força aos que permanecem vivos.

Claro que, para obter tal reconhecimento e lugar, algo precisa ser feito. Uma imagem precisa ser recordada, um gesto precisa ser efetivado, uma compensação precisa ser feita – e muitas vezes vemos, nas constelações familiares, a reconciliação, o perdão, o tomar para si parte da responsabilidade ou ceder a responsabilidade para quem lhe é devido, são gestos, frases, posturas que trazem alívio e liberação para o sistema familiar.

Pensar sobre a morte nos ajuda a viver melhor. Se pensarmos na morte agora, poderemos morrer em paz e sem arrependimentos. Meditar sobre a morte é um processo de cura.

Devemos incluir a nossa morte na nossa vida!

   

Escrito por Marita Vargas Ilário, Pedagoga, Educadora Emocional Sistêmica e Consteladora Familiar. Atendimento terapêutico Educacional de crianças, jovens e adultos.

 

 


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