Família multiespécie é uma realidade cada vez mais presente nos dias de hoje

Há milênios o ser humano vem interagindo com a fauna e flora do planeta. Existem evidencias arqueológicas datadas de 14 mil anos da presença do lobus domesticus (canis lupus), que são ancestrais do cão, e que já conviviam nos assentamentos dos seres humanos

Nos primórdios, a relação do homem com o animal foi de interação e de cooperação mútua. O homem caçava e o lobo auxiliava nesta tarefa. Também era de grande eficiência a segurança e proteção que os homens recebiam destes animais. Assim, a primeira relação entre os homens e os ancestrais dos cães foi baseada na cooperação mútua, mediada por abrigo, comida e proteção.

Foto/Divulgação

Em relação aos gatos, existem evidencias de que há 9 mil anos este animal já era de grande serventia para caçar os ratos e as pragas que atacavam os grãos e lavouras. No antigo Egito, o gato tinha sua função valorizada, caçando roedores e assim protegendo os grãos contra as pragas e contaminação. Naquela época o gato foi extremamente importante e símbolos como a deusa da fertilidade tinham forma de homem e de gato. Na Idade Média o gato foi quase extinto, pois era associado à bruxaria e à demonificação, uma das alegadas causas da peste negra na Idade Média. Contudo, era desconhecido o fato de que os gatos caçavam os ratos e, sem os gatos, os ratos proliferaram, proliferando também as pulgas, que eram as transmissoras da peste que assolou o ser humano neste período. A conclusão é que a peste poderia ter sido menos intensa sem a caçada aos gatos. Na Idade Moderna o gato voltou a ser um animal mais próximo aos seres humanos.

Com o transcorrer do tempo a relação entre homens e animais foi se intensificando, deixando de ser apenas uma relação de funcionalidade e passando a ser uma relação de apego e interação por afeto. Os animais deixaram de ser somente funcionais e passaram a ser companhia. 

Na realidade contemporânea há uma redefinição do conceito e das possíveis formações familiares. Nessas configurações familiares emergentes estão as famílias monoparentais, femininas ou masculinas, binucleares, homoafetivas. A progressiva e interativa relação entre pessoas e animais foi constituindo essa nova configuração familiar: a família multiespécie. Essa nova configuração vem despertando interesse e galgando espaço em diversas áreas de estudo, principalmente em Psicologia, Medicina Veterinária e Direito. Essa configuração é crescente e amplia o conceito de família, que valoriza mais os laços de afeto e não os de consanguinidade.

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Estudos mostram que as pessoas veem suas relações com seus animais de estimação como relações similares às que têm com seus filhos, brincam com seus filhos de quatro patas, falando em tom maternal. Os animais são vistos como tão próximos quanto os filhos consanguíneos. Nesta nova formação familiar os tutores consideram seus pets como legítimos integrantes do grupo familiar, mantendo assim uma relação de afeto, respeito e harmonia entre homens e os novos membros de quatro patas. Também é importante ressaltar que esses animais participam ativamente da rotina do lar, sustentando assim o vínculo afetivo.

Os animais nessas novas constituições familiares são filhos, irmãos, sobrinhos, estão sempre presentes e acabam por conquistar espaços na vida de seus cuidadores, fortalecendo a presença e companheirismo no relacionamento entre homens e animais. Nesta relação os filhos de quatro patas proporcionam afeto ininterrupto, onde a amizade e tolerância são constantes. Esta presença constante é uma base segura em um relacionamento, fortalecendo os laços de confiança e apego. Outro aspecto importante a salientar é que nesta relação existe a reciprocidade afetiva entre os membros, onde o aconchego indica um momento de bem-estar e prazer no convívio da família multiespécie. Os membros de quatro patas são capazes de preencher o vazio vivenciado por seus cuidadores e podem suprir a ausência e saudade de familiares humano. A solidão também pode se destacar nesta nova constituição familiar, mas a interação com os filhos de quatro patas e os cuidados dedicados aos mesmos podem diminuir ou superar o sentimento de solidão dos humanos.

Nesse contexto da família multiespécie é preciso destacar que a morte de um animal é vista de forma diferente. Ela é a perda de um membro familiar, que será uma realidade vivida e sentida e será carrega de emoções e significados. Com a forte formação do vínculo, diante da perda deste membro familiar de quatro patas, haverá sofrimento e luto pela morte. É importante ressaltar que muitas vezes a sociedade condena e não autoriza o luto pela morte de um animal. Muitas vezes há uma certa dificuldade e vergonha do cuidador em mostrar tristeza pela morte de um animal, mesmo que essa perda para o membro familiar seja semelhante à perda de um membro humano. Mas é preciso e importante para esse círculo familiar vivenciar o luto, senti-lo, ritualizá-lo e assim trazer conforto para os cuidadores.

A família multiespécie é uma realidade e está cada vez mais presente na atualidade. Os novos membros de quatro patas ganham cada vez mais espaço e importância, fortalecendo assim essa relação interespécies. Nessa nova constituição familiar é importante observar que os membros familiares de quatro patas oferecem amor e companhia, sem as mesmas exigências dos seres humanos, aceitam sem julgar, e que os benefícios desta nova constituição familiar vão desde a saúde física à saúde mental e emocional. Contudo, como qualquer membro familiar, eles necessitam de carinho, cuidado e atenção.

 

Colaboração/Artigo

Sandra de Almeida, médica veterinária e psicóloga


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