Luto sem despedida, em tempos de COVID-19!

Portal Vaticano 2021-06-28 20:26:00

Antigamente, se morria em casa, na presença dos familiares e amigos. Nessa época, a morte era considerada como natural.  Porém, na atualidade, a morte passou a ser considerada invertida, ou seja, escondida, e transferida para o hospital. Deixou de ser vista como um fenômeno natural para ser considerada um fracasso.

Neste sentido, quando ocorre a perda pela morte de um parente ou amigo, a pessoa se sente enlutada.  Assim sendo,  pode-se dizer que luto é uma reação normal, que acontece com todas as pessoas na eminência de uma perda, ou após ela, seja por uma perda real ou simbólica. E a recomendação é de que seja elaborado, de modo que, não evolua para um luto complicado, necessitando de ajuda especializada.

Dificilmente, alguém pensa sobre a sua própria morte, em dias normais. No entanto, em tempos de pandemia, o paciente contaminado pelo novo coronavírus, também pode se enlutar frente a sua própria doença, manifestando seu medo sobre o que poderá vir a acontecer com ele, com sentimento de desesperança, comentando sobre o receio de que, caso venha a falecer, não esteja sozinho neste momento.

Por esta perspectiva, como modo de acolhimento, alguns profissionais da área da saúde, estão colocando à vista do paciente internado, fotos plastificadas da família e de seus animais de estimação; permitem que cartas sejam escritas e entregues aos seus familiares; realizam encontros online entre os pacientes internados e seus familiares. Sendo que, muitas vezes, esta pode ser a última vez em que eles podem conversar, se despedindo.  

Quem passa por uma perda pode manifestar sentimentos de tristeza, raiva, ansiedade, solidão, choque, anseio pela presença do outro, desamparo, culpa e auto recriminação.   Também, algumas queixas somáticas, são bastante comuns como o: aperto no peito, nó na garganta, vazio no estomago, hipersensibilidade ao barulho, falta de ar, fraqueza muscular, boca seca, falta de energia. Da mesma forma, o choro, o distúrbio do sono e do apetite, o comportamento aéreo e o isolamento social fazem parte desse período. E tudo isso é considerado normal, nos primeiros tempos da perda.

E muitos perguntam como elaborar o luto, como superar a sua perda? Não existe uma receita pronta para isso pois trata-se de um processo individual e singular, ou seja, cada um tem o seu próprio modo de se enlutar.

E a dúvida continua sobre quando o processo do luto termina? Costumo sempre dizer que é quando lembramos do nosso ente querido que partiu com uma saudade gostosa e não mais dolorosa. É quando quem fica começa a investir em novas relações e projetos de vida.

Estamos passando pelo momento em que muitas mortes sociais estão acontecendo, pela falta de acesso a médico, a hospital e pela falta de despedida também.

O ritual de despedida é de suma importância, em qualquer época da vida: O estar junto, dar o último adeus, pedir perdão ou ser perdoado, realizar o último desejo do seu ente querido, poder velar o corpo.  Ele é necessário, uma vez que, ajuda na elaboração da perda, permitindo a validação dela. 

Contudo, estamos vivenciando uma espécie de luto coletivo, com um grande número de mortes, devido a COVID-19 e o ritual de despedida está sendo negado como consequência de uma possível contaminação.

Alguns familiares, tentam manter a tradição, se despedindo de longe, apenas observando a urna funerária; encomendando missa pela alma daquele que partiu, acendendo velas para iluminar o caminho do que se foi, por exemplo.

No entanto, percebem-se alterações significativas, com rituais virtuais, onde plataformas digitais, podcasts e redes sociais estão sendo utilizadas como modo alternativo à maneira tradicional. Vídeo chamadas, começaram a fazer parte de encontros simbólicos entre familiares e amigos, como homenagem aos entes queridos que já se foram. Além da criação de memoriais virtuais.

  Importante frisar sobre a importância de haver algum tipo de despedida, mesmo que simbólica, de modo que, o luto não evolua para um luto complicado.

 

“Diante da morte, as coisas irrelevantes se tornam ainda mais irrelevantes”.

Irvin Yalom

 

Artigo de Solange do Carmo Bowoniuk Wiegand - CRP 08/3266

Psicóloga, coordenadora do Curso de Extensão Falando sobre Perdas e Lutos da Universidade Positivo. Coordenou Grupo de Apoio a Enlutados e foi psicóloga voluntária na Associação dos Funcionários Aposentados do Banestado (AFAB). Atua na área de Tanatologia há mais de 20 anos com cursos, palestras, seminários, com coautoria em livros e publicação de artigos


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